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Terminamos 1971 mais apaixonados que no inicio, ano em que nos descobrimos, aprendemos a nos amar,
ficamos surpresos, pois o amor dos romances havia entrado em nossas vidas e nos o alimentamos com cartas,
as da Genice mais tímidas, as minhas mais afoitas, nesta ultima carta do ano Genice quase que profetiza dizendo,
--- “amo cada carta que te mando, pois sei que elas são documentos do nosso amor”.
A clarividência sempre foi uma das qualidades da Genice, e com seus dezesseis anos escrevendo essa frase
o revelou o futuro que hoje tornou se presente e real.
Cada carta após ser lida e relida, à espera da próxima, era guardada com carinho, e hoje estão novas ainda,
com envelopes e algumas com fios de cabelo, pedaços de unha, e restos de embalagens do que um de nós
estivesse comendo.
Elas tornaram realizável esta jornada a que me proponho, contar nossas vidas.
Minhas memórias estavam hibernando durante anos indescritíveis de amor e felicidade, não precisava delas,
pois Genice era meu alimento e meu ar. Ela me sustentava com seu amor e de nada eu precisava.
A saudade e a distancia que caracterizaram nossos cinco anos de namoro voltaram a reinar, agora,
com toda sua força e indiferença pela minha dor.
E então as cartas voltaram a ser a ligação entre nós, Genice não mais as lê, mas quando as escrevo
estou mais perto que nunca dela e cada palavra que escrevo refazem os votos de nosso amor eterno.
Outubro de 1971 minha avó Izahia falece em Curitiba, esperei ansioso pela Genice, mas sua mãe chegou
sozinha com João Carlos, seu pai.
Decepção e tristeza.
Novembro de 1971.
Genice estava com sua mãe e irmãs fazendo feira no bairro de Santana, em São Paulo, pouco dinheiro, mas muitas crianças,
o pastel de feira não poderia faltar mesmo que sacrificasse alguns quilos de qualquer verdura, que ninguém comeria mesmo.
Dias de feira eram dias alegres, Genice reinava com sua beleza e graça, seu sorriso cativante trazia
sempre vantagens ou no peso ou no desconto.
Menina linda que chamava atenção onde fosse. Lindas tranças, rosto perfeita, meiga e extremamente educada.
Essa era minha garota! Essa foi a mulher de minha vida, minha paixão, meu viver!
Terminadas as compras, cada um comendo seu pastel (prazer que Genice carregou pelo resto da vida, melhor
ainda se com caldo de cana e de limão) foram para casa.
Cansados de tanto subir e descer ladeiras (moravam na Avenida Imirim, 1164), chegaram e encontram seu
pai fazendo sua especialidade culinária, enroladinho de carne, ( delicioso, mas seria mais ainda
se tivesse menos sal).
Semblante sério disse à Jeny --- Sua mãe está muito doente, temos que ir para Curitiba, vamos
só nós dois.
Mal ela sabia que João já sabia da morte de sua mãe.
---Não João, vaomos todos que mamãe vai querer ver as crianças, disse Jeny, aflita.
O coração de Genice quase saltou do peito, vou ver o Fernandes, pensou e seus olhos
brilharam marejando de lágrimas. Não sabia se ria ou chorava. Riu.
O carro era uma Kombi velha, dinheiropara a viagem não tinham, João saiu em busca e emprestou
do Luizinho, amigo e apaixonado pela Ione (ou talvez fosse o contrário).
Deixaram São Paulo ao meio dia, o enroladinho de carne foi devorado já no inicio da viagem.
No interiror do carro, seis crianças inquietas e dois adultos, tão apertados que Jumara sentou se
no colo da Genice.
Cantaram durante toda a viagem hinos de louvor, deve ter sido bom, pois Deus os protegeu,
-- a Kombi quase capotou na rodovia.
Era quase meia noite quando chegaram a Curitiba, casa da tia Anice, ao entrarem na rua
viram muitos carros estacionados e uma multidão de parentes, Jeny desce esbaforida ao
encontro do tio Fariz perguntando,
--- tio, porque tanta gente, a mãe está tão mal assim?
--- Jeny, a Fádua morreu de manhã, disse e a abraçou ambos chorando.
Em menos de um mês tio Fariz perdia sua mãe e sua irmã mais velha.
Genice desceu do carro com o coração em conflito, tristeza ou felicidade, sua avó que a criou
havia morrido, mas viu Fernandes a sua espera. Chorou um pouquinho nos seus ombros, mas
logo o amor venceu a dor e coladinhos sentaram-se na escada que dava para o sótão, ficaram
lá durante toda noite conversando, se tocando e se beijando.
Ao amanhecer, cansados e felizes foram chorar um pouco, mas novamente a luz venceu a escuridão
e sentaram se na ária, à espera angustiante da despedida, foram embora naquela mesma tarde.
Tia Fádua, sua avó, em espírito, estava ali ao lado deles abençoando-os. Genice era o seu orgulho,
sua linda e querida neta e Fernandes, filho de sua irmã Catarina, era o jovem desejado para
ela por toda família.
Aquela noite, sentados na escada, foi a primeira que passaram juntos, milhares de
outras se seguiriam e todas felizes, pela primeira vez viram o sol nascer de mãos dadas na ária
da casa, mal sabiam que o destino lhes reservava um futuro em que a tristeza nunca teve espaço
e o amor jogaria sua semente, transformando aqueles dois jovens em um homem e uma mulher
apaixonados, com filhos perfeitos e encantadores e um neto, que ambos diziam, com orgulho,
---Esse é o neto que sempre desejei!








Outubro de 1971.
Vovó Izahia, "sitáa" em árabe faleceu, mãe de minha mãe Catarina, teve
complicações de diabetes, naquele tempo pouco entendida e muito mal
medicada por deficiências não dos médicos, mas da medicina em si.
Família tipicamente árabe, muito unida, os parentes vinham em caravana,
aos gritos e choros, emoções liberadas pelo sofrimento da perda da
matriarca da família Calixto.
Lembro-me da minha ansiedade esperando a chegada dos pais da Genice
e quão foi minha decepção ao não vê-la.
Havia treinado e sonhado a noite toda pensando em palavras maravilhosas
para dizer lhe, esperava enxugar suas lágrimas com meus beijos (adoro isso)
e tinha certeza que viria.
Frustração e raiva. Olhava para minha futura sogra com ira, pois será que
não sabia que eu a amava e queria vê-la?!
Naqueles primeiros meses de namoro, apenas oito meses estávamos
aprendendo o estilo e o jeito de ser do outro, tanto eu quanto ela ainda
tínhamos certa ansiedade e insegurança. Eu tinha um medo enorme de
que a Genice não gostasse de mim como eu dela.
Sentia uma sensação de que não iria conseguir mantê-la apaixonada
por mim, sentia-me um garoto fora de moda, deslocado, puro nerd,
sem dinheiro, óculos enormes (mas duradouros), roupas simples e, na maioria
das vezes doadas por primos mais ricos, eu era inseguro e tímido.
Apenas a presença de Genice fazia com que eu me sentisse poderoso
e eu quase que ficava mais alto, pois estufava o peito de orgulho de
minha querida. O curso de medicina fez com que amadurecesse
intelectualmente e ao mesmo tempo, como que de uma hora para outra,
meu corpo mudou e tornei-me um homem.
Apesar de que foi Genice com seu imenso amor, notando minha
insegurança sempre que estávamos juntos fazia tudo para elevar-me,
bajular-me, dizer que eu era o mais inteligente, o mais bonito (quem dera)
apenas, anos depois me disse que mesmo acreditando, falava para elevar
minha auto estima. Teve sucesso, pois em menos de um ano eu era outra
pessoa, a certeza de ser amado, a consciência de que minha namorada era
uma mulher de uma beleza rara aliada a uma personalidade mais especial
ainda, fizeram com que eu tornasse me seguro e confiante, e assim graças
ao amor e ao carinho de uma mulher que nasceu para me amar, tornei-me
homem que sou.
Meu anjo, seu neto Guilherme não me deixa escrever, mesmo no frio de
inverno que está aqui hoje, terei que levá-lo para sair um pouco e comer
espetinho lá na Iracema, onde tanto você gostava de ir.
Saiba que te amo, cuide de mim, me proteja para não cometer erros
que possam impedir de te encontrar na eternidade.
Eu te amo, não consigo ainda aceitar sua ausência, parece que já
você entrará por esta porta e me desafiará para jogar paciência
spider aqui no computador.
E parece que você ao sair do banho, toda cheirosa, cabelos longos
e molhados, do jeito que sabe que eu adoro, com suas lindas pernas
sobre a cama e passando Sève nelas, está me dizendo, pela milésima vez:
---Fernandes, não existe mulher mais limpa e cheirosa do que eu.
E me fazendo tocar sua pele para conferir.
Como sempre, com tom de voz sério, mas com um belo sorriso
e seus olhos lindos e maliciosos olhando os meus, como
que esperando que eu vá lá conferir e te amar. E aí se não for!



Estou no consultorio, nove horas da manhã de uma segunda feira especialmente triste.
Hoje inicia o mês de Junho, e tomei um medicamento para dormir que me deixa
deprimido. Este era o horário em que você estava sentada no seu lugar na mesa me
aguardando para tomar o café da manhã. Todos dias. Depois nossa voltinha de carro e
então eu te deixava e vinha para a clinica. Tempos felizes que não tem mais retorno.
Estou hoje em pânico sobre o meu futuro, nunca mais vou te ver, nunca mais vou te
amar, nunca mais vou ver a maravilhosa imagem de você levantar se da hidromassagem
com o corpo todo coberto de espuma. Meu amor, se Deus te permitir venha
conversar comigo.
Esta madrugada, novamente insone lembrei-me vendo um episódio de Friends, de
como éramos amigos além de apaixonados.
Lembra-se de um dia nós estavamos no auge da paixão, nos amando eu te dando "aquele"
beijo mais gostoso do mundo, nossos lábios encaixados, corpo todo colado, eu como
sempre de olhos fechados e então senti um movimento estranho em seus lábios,
depois novamente voltou a me beijar, mas então você não aguentou e desandou a rir, um
riso gostoso e alegre. Parou e tentou voltar a me beijar, mas ria baixinho com os lábios
colados ao meu, e então como o riso é contagioso, ambos rimos, eu sem saber porque.
Paramos e ficamos abraçados e conversando, então me contou algo muito engraçado
que tinha ocorrido e que, sem motivo lembrou-se naquele momento, lembro-me de nós
deitados com sua cabeça em meu peito, eu com meus dedos em seus cabelos, sua perna
em cima de meu corpo e ficamos ali ouvindo musicas e falando, rindo e se divertindo.
Isso é amor! Amor não exige a satisfação sexual, exige a cumplicidade, a amizade, o
prazer do contato físico por si só, a liberdade de rir e chorar quando quiser sem cobranças,
a identidade respeitada e o prazer da companhia do outro independente do desejo.
Éramos tudo isso e muito mais que não saberia colocar em palavras, cada segundo
que vivi com você foram preciosos, únicos e intensos. Amei-te em todas as vidas que
possa ter tido, amarei-te em todas que possa ter, e se, só tiver esta, nesta te amei
por todas as outras, um amor tão intenso e verdadeiro que com ele nós construimos
uma história impar e maravilhosa, uma jornada de vida que gerou filhos do amor e luz
e um neto maravilhoso.
Minha querida estou no consultório, tem pessoas me esperando, nem comecei ainda
a atender, mas saiba meu amor, que estou contigo onde você estiver e daria meus
olhos, minhas pernas, tudo que tenho, minha profissão até, para ter você comigo, mesmo
que precisássemos catar lixo ou sermos andarilhos, mas se eu tivesse você seria feliz
e realizado.
O incrível disto tudo é que eu era feliz e SABIA DISSO, muitos dizem que eram
e não sabiam, sempre tive consciência que nosso amor era especial e raro.
Sempre soube que fui uma pessoa escolhida por Deus para viver ao lado de
um Anjo, sempre soube que você era diferente e especial, alguém que conheci
menina e ingênua e transformou-se ao meu lado em uma mulher completa,
segura e maravilhosa.
Graças te dou meu Deus, por ter permitido ter Genice ao meu lado durante
toda a vida que Você permitiu a ela.
GENICE você foi anjo na terra, agora é MEU ANJO NO CÉU!






Meu amor. Não tive coragem. Não fui.
Teria que ir para São Paulo hoje, todos meus irmãos e meu
pai lá estão, me aguardando, com entrevistas marcadas nesta
segunda no consulado para pedir a cidadania espanhola.
Acovardei-me e fiquei aqui em meu casulo, no útero quente não
de minha mãe, mas seu. Ninguém imagina o quanto fui feliz naquela
cidade e nunca estive lá, nenhuma vez sem você ao meu lado.
Ali você reinava tudo sabia, foi uma juventude inteira andando
por aquelas ruas a pé, subindo e descendo ladeiras e dizia que era por
isso que sempre foi magra e de canela fina.
Uma preciosa recordação. Janeiro de 2006.
Eu e você numa Strada carregada de móveis para mais uma mudança
de um filho, desta vez o Ricardo que iniciaria naquele mês a
residência em cardiologia na Beneficência Portuguesa.
Gravei um CD com nossas musicas preferidas, mais de 200 em mp3.
Bandas que não estavam nas rádios, Dead Can Dance, Enigma, Era,
Buddah, Enio Morricone, anos 60 a 80, e lá fomos nós.
Janelas abertas, todas elas, som no ultimo volume e eu a oitenta quilômetros
por hora para prolongar o máximo o prazer de viajar contigo.
Um dos grandes prazeres que tínhamos era sair de carro com o som alto,
ouvindo musicas que apenas nos gostávamos, velocidade que pouco exigia
de mim e então amar, amar e amar... Não o amor físico, mas o amor mais
intenso e duradouro, que é o compartilhar e dividir tudo, tudo mesmo, sem exceções.
Esse é o segredo do amor eterno, compartilhar sensações, desejos e prazeres e
também as pequenas e miúdas coisas da vida como comer um sanduíche a
beira da estrada, descobrir uma banda ou um artista e se apaixonar, massagear
meu pescoço que sempre doeu com o estresse de dirigir ( prazer meu e seu
também amor, pois você adorava passar a mão em mim), beijos rápidos e
delicados, um café com leite e um pão na chapa com margarina... e tantos mais.
Saímos daqui ainda de madrugada. Céu azul feito especialmente para meu amor,
e nossos corações cheios de jubilo e alegria. Cada paisagem era uma historia.
Cada montanha no horizonte você dizia que seu sonho era ter uma só sua
para ficar lá a noite comigo mais próximo de Deus vendo as estrelas e me amando.
Seus pés no painel do carro, sua voz límpida, falando de assuntos que nunca acabam,
seu perfil lindo contrastando com o azul do céu, perfil que me maravilhou toda
vida e então fomos, felizes pela Castelo parando em cada boteco para conhecer
algo, fazer xixi ( eu) e incrível, após tantos anos juntos, sentar em uma
mesa e namorar e beijar porque ficar duas ou três horas dirigindo tornava
insuportável a vontade de tocar nossos lábios em beijos ora suaves ora cheios
de paixão e principalmente ficar ali alguns minutos um olhando nos olhos do
outro em interminável adoração mutua. Nossos beijos nunca respeitaram
ninguém. Nosso amor sempre foi espontâneo e livre e sempre dizíamos
“o que dirão esses dois jovens aí ao lado, vendo dois velhos como
nós beijando na boca" e você ria e beijava mais e mais.
Orgulhosa.
Chegamos a São Paulo ao meio dia, descarregamos mobília, só nos dois,
oitavo andar. Montamos tudo, quase nos quebramos inteiros para levar o
fogão, a geladeira para cima. Montei camas e móveis, você limpou tudo,
arrumou, fomos ao supermercado fizemos a primeira compra, tudo isso
no sábado e a noite juntinhos sobre um colchão de solteiro (ainda sobrou
espaço) ali dormimos, não sem antes relaxarmos nossos corpos com todo
amor que Deus gerou e colocou sobre nós.
Domingo a tarde, antes mesmo de Ricardo chegar, retornamos à estrada e
iniciamos o mesmo caminho com os mesmos prazeres e uma fome intensa,
pois não tínhamos ceado desde o dia anterior.
Logo no inicio da Castelo paramos no McDonald’s e lanchamos.
Domingo perfeito de sol. Lembro-me de um casal de ciclistas ali ao lado e
você dizendo que delicia seria sair assim comigo, viajar pelo Brasil, livres e
sem compromissos. Musicas e risos, brisa em seus cabelos esvoaçando livres.
Ah! Ia me esquecendo, nessa época você redescobria os BeeGees e ouvia
suas canções retornando à juventude e para sorte minha ficava cada vez mais
amorosa e apaixonada.
Então... Mais beijos, mais carinhos, mais amor!
Para você, amiga, que estiver lendo, saiba que esse dia delicioso foi como
todos dias em que vivi com Genice, foi apenas um de milhares.
Todos perfeitos, mesmo naqueles em que tínhamos nossas briguinhas,
pois após cada uma delas mais eu a amava, brigas nunca contra mim,
mas por mim, lutava com garra e então era poderosa e temia me perder.
Tolinha! Eu te Amo!
Brigas não geradas pelo ódio ou pelo desinteresse, mas geradas pelo
amor e motivadas pelo desejo de manter nossa família unida e cheia de paz.
Em todas as nossas rusgas eu fui o culpado.
Meu amor peço perdão pelas lágrimas derramadas, mas você sabe que
todas elas eu enxuguei com meus beijos e seus lábios molhados beijei e
cada reconciliação amamos intensamente.
Foram tão poucas que mal me lembro, talvez duas ou três em trinta e
sete anos juntos.
Essa maravilhosa mulher desde o primeiro dia, desde o instante em
que a vi pela primeira vez, tomou conta de mim, e meus pensamentos
sempre foram para ela... Amamos como ninguém!
Vivemos aquela viagem com intensidade, a cada quilometro ficou uma
lembrança, sua presença está em todas as paisagens e depois desse
dia outras vezes voltamos, sempre com o mesmo prazer e alegria.
Não tive mesmo coragem de retornar àqueles lugares que estive com
você, acovardei-me de verdade, estou cansado de sofrer e chorar
preferi neste domingo melancólico, frio e nebuloso, em que a chuva
miúda não pára ficar embaixo da coberta (a mesma nossa), a lembrar
de nossos domingos e a cochilar sonhando com você, ver o meu
netinho jogando videogame do Homem Aranha, e a esperar o tempo
passar.
Um dia estaremos juntos novamente.