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Alegria e risos. Esse era o perfil de Genice. Novamente fotografada na Praça, neste momento não
notei, mas aí ela já demonstrava que seria uma mãe perfeita e super protetora. Nossos filhos a
amam, pudera, foi mãe perfeita, nenhuma falha, até grande cozinheira transformou-se. E quando
casamos passamos meses comendo feijoada em lata. Quem diria!

Quando víamos juntos essa foto, que também foi na Praça, eu dizia que Claudia Cardinalle era quase
tão bela quanto Genice. Nesse dia beijei esses lábios tanto que no fim de tarde estavam doloridos.

Na Praça, ninho onde nosso amor cresceu. Beijos incontáveis. Momentos
felizes, mais que tudo, momentos com a Genice.
Hoje dia dezessete. Faltam apenas sete dias. Como poderíamos imaginar?
Férias de fim de ano de setenta e um para setenta e dois. Em nosso primeiro ano aprendemos a amar e a nos conhecer.
Talvez não acreditem, e nem faz diferença, mas após aqueles poucos meses já nos conhecíamos tanto quanto hoje trinta
e cinco anos depois. Eu sempre me via nos seus olhos e ela a mim. Nem precisávamos conversar nos comunicávamos pelo
olhar ou às vezes até em pensamentos. Genice e eu conversávamos em silencio, as vezes ela respondia uma pergunta que e
u havia feito apenas em minha mente. E ríamos disso e ao mesmo tempo tínhamos orgulho.
Ela achava que isso tudo provinha da força da alquimia sexual, algo que aqui não posso explicar, mas que mantinha nossa
energia armazenada dentro de nós e a canalizávamos para onde queríamos.
Voltando ao inicio, vou procurar não divagar novamente, primeiro ano de nosso namoro, férias de dezembro.
Primeiros meses em que realmente passamos dias e dias juntos. Tempos diferentes de hoje, tempo em que amávamos com
intensidade sem fazer sexo, não era necessário. Genice era tão preciosa, tão divina que se eu a possuísse de qualquer modo,
em qualquer lugar, como os jovens fazem hoje, seria como comer iguarias com as mãos e sem saborear.
Primeiro preparei o altar para minha deusa, de ouro e diamantes e lá a coloquei no momento certo,
com a permissão de Deus.
Eu a amava e desejava tanto que esperei anos para tê-la porque esse primeiro momento teria que ser perfeito,
divino, mágico e para sempre lembrado. E assim o foi.
Dias inteiros caminhando sob o sol de dezembro na Praça de Jundiaí, sentados nos bancos, sempre tinha um ou
outro que era o preferido, Genice cada dia mais bela, deixando de ser menina e transformando-se em uma adolescente
apaixonada e terna. Eu também sentia transformações em meu corpo, deixei de ser tão franzino, comecei a me sentir
seguro e forte, fui um adolescente que cujo objetivo era estudar e amar Genice. Aprendi naqueles tempos lições que
carrego até hoje, aprendi que o maior prazer é ceder à amada, é cuidar e proteger, é dar alegria, gerar sorrisos e
sentir o suspiro apaixonado ao término de cada beijo. Dediquei todos os dias de minha vida para fazer Genice feliz.
Em nosso último dia até os derradeiros minutos ficamos abraçados nos beijando com os filhos ao lado conversando.
Últimos momentos felizes de minha vida.
Divaguei novamente, não tem mesmo jeito. Sou assim, meus pensamentos não param, Genice dizia que eu era escravo
de minha mente, como sempre tinha razão.
Os dias passam iguais e monótonos e se transformam em noites solitárias e insones.
Fico me perguntando, na angustia opressiva de minha solidão, como seria se você estivesse comigo neste instante.
O cachorro da rua estaria latindo do mesmo jeito, este carro passaria agora, passos que ouço estaria ouvindo,
até o farfalhar das folhas das arvores ao vento seriam exatamente iguais, nem um movimento a mais nem a menos.
Apenas você não está aqui, e é como se isso nada mudasse.
Em mim mudou radicalmente, nunca mais serei completo, pleno. Sou uma parcela mínima do que fui tudo que sobrou
foram lembranças, boas lembranças. Nada mais resta a mim. O consolo é viver pelos filhos e pelo meu neto, mas o meu
"eu" nunca mais será como antes. Não existo mais, não como antes.
Amo-te, amor, mais que minha vida, você é mais que meus olhos, meus braços, minhas pernas.
Perderia tudo só para poder despedir-me e dizer pela última vez:
--“Vá em paz amor, cuidarei de todos como você sempre cuidou, leve comigo todo o meu amor e prepare um lugar
ao seu que logo lá estarei. Obrigado pela vida que me deu, e obrigado por ter me dado sua vida. Eu sempre te amarei”.
Nesta noite escura e fria, noite perfeita para se romancear e namorar ao luar pálido, a luz é inimiga dos
apaixonados, peço aos anjos do céu que digam ao meu amor quanto eu te amo. Ficarei aqui insone esperando
esta noite acabar para amanhã recomeçar o dia pensando em você, olhar ao céu, as nuvens e sentir o vento
soprar em meu rosto,e te dizer mais uma vez, “Genice meu amor, estou aqui ferido pela sua perda , onde você
estiver cuide de mim, não permita que eu peque, pois quero estar contigo no céu por toda eternidade”.


Noite fria, escura, silenciosa, apenas uma coruja piando na mangueira. Nós adorávamos e hoje odeio.
Nessas noites de inverno você,olhos brilhantes e maliciosos, sempre me dizia:
--”Fer, hoje quero deitar bem cedinho e curtir você e dormir bem agarradinha".
Tínhamos todo um ritual, banho bem quente, primeiro você, depois eu. Sève em todo seu corpo.
A eterna briga eu querendo encostar meu corpo meio que molhado e gelado ao seu, só por pirraça,
e você fugindo e rindo implorando para que eu me enxugue melhor, coloque um par de meias ou ao menos
fique mais longe na outra ponta da cama até me aquecer. Meus pés sempre foram gelados.
Se tivesse um filme assistíamos, mas os que gostávamos poucas vezes passavam nas TVs, quem já teve o prazer
de ver os filmes da qualidade de “Meu Tio”, “O Baile”, “Oito e Meio” na TV?
Geralmente a musica era a nossa companheira, você com seu chocolate lacta branco e eu com o meio amargo,
o som no último volume. Enya. Clannad, Buddah.
E ali ficávamos, abraçados aos beijos, em massagens intermináveis (sempre em você), seus risos
altos e escandalosos, e quantas vezes eu cavoucava os seus pés tirando as cutículas e frequentemente
sangue, na verdade só pelo prazer de poder adorar alguém tão adorável. Seu sangue eu chupava.
Todas as noites o telefone não parava, enquanto cada filho não telefonasse você não tinha sossego.
Relatórios diários da faculdade e principalmente fofocas, você adorava.
Houve uma época em que um estava no Rio, outro em Londrina e outro em Curitiba;
você, a minha amante, só se revelava após você, a mãe Genice, ser liberadada pelos filhos.
Então sim, eu a tinha só para mim, o mundo era só nosso.
Voltávamos como no inicio de tudo, quando éramos apenas eu e você, e de nada mais precisávamos.
Dias nublados, friorentos e tristes, mas as noites chegavam e eu me aquecia em seu aconchego, em seu amor
minha querida, em você, a mulher que amo tão intensamente que hoje, um ano após, sinto desespero
em saber que não voltará jamais.
Meu sofrimento é em grande parte porque tínhamos uma ligação íntima e contínua que subitamente se rompeu.
Perdi completamente o contato contigo, minha alma gêmea, não tive e nem você teve a noção de que
algo tão terrível iria acontecer, não nos despedimos, não tivermos tempo para chorar ou dar o último beijo.
Tivemos tempo nenhum. Você foi simplesmente arrancada brutalmente deste mundo que tanto você amava.
Você não merecia! Sempre bondosa, distribuindo amor e caridade! O universo é menor que o vazio que deixou.
Angústia por não poder saber o que você esta pensando agora. Não saber como você está?
Você que nunca conseguiu ficar um dia longe mim, será que está sofrendo? Triste?
E eu, o que será do resto de minha vida? Como viverei sem você, que amo mais que a mim mesmo.
Nunca mais verei seu sorriso, ouvirei sua voz. Nunca Mais.
TERRÍVEL.
Cada vez que sorrio, que me alimento de algo que gosto ou assisto a um filme, sinto uma sensação de culpa
e remorso, como se estivesse pecando, pois sinto que não tenho o direito de sentir prazer nunca mais.
Chega de lamentações!
Genice, nosso neto está mais lindo e inteligente dia a dia, se fosse filho do Raphael não teria o gênio tão
parecido, nosso filho quando criança era obcecado por playmobil, o Gui é pelo Homem Aranha.
O dia todo vive em função de seu herói, ou no vídeo game, ou com seus bonecos ou falando nele apenas.
Viu na TV um travesseiro de Homem Aranha, agora quer um também. Onde vou achar?
Eu estou levando a vida como sempre levei, consultório, hospital, casa. Nada mais. Nada menos.
Única diferença é que agora fico mais tempo na internet. Ameniza um pouco a solidão.
Antes minha vida era só você, ainda continua, sendo apenas que fico aqui escrevendo sobre nós.
Nossos filhos estão cada vez mais maduros e continuam ótimas crianças, a Raphaele é que esta mais
triste, ou demonstra mais, perdeu a mãe que era a sua referência. Ela sendo sua filha é forte e vai superar tudo.
E eu acho que estou ficando meio maluco escrevendo cartas a você que nunca as vai ler.
Sabe por quê escrevo? Porque para mim, você continua viva e eu te amo cada dia mais.
Continuarei a escrever, talvez chegue o momento em que nós dois, rodeados de luz, vamos ler juntos tudo
o que escrevi e você vai brigar comigo por publicar suas cartas e eu vou sufocar sua voz com beijos e beijos.
Espere-me Genice, estou sedente de você!
EU TE AMO!