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Naquele inicio de namoro tudo era diferente dos dias de hoje.
Quando a Genice estava em férias eu ia vê-la, sempre era de ônibus, os terriveis ônibus da Princesa, desembarcava
as três horas da manhã em Santo Antônio e ficava esperando sentado em um banco de cimento frio e duro,
fazendo companhia a prostitutas e bêbados, até as nove ou dez horas da manhã quando saia o ônibus para Jundiaí,
poeira e mau cheiro e dezenas de paradas, até galinhas e marrecos os passageiros levavam.
Tudo era muito difícil, mas minha juventude e a perspectiva de vê-la não me faziam sentir e nem notar nada disso.
Conforto era totalmente inexistente, no inverno era gélido, no verão tórrido, poltronas duras e estreitas, nem sempre
tinha w.c. e quando não tinha eu já entrava com vontade de usar, quando tinha nunca precisava.
Coisas da mente. Mente que me escraviza até hoje.
Chegava a Jundiaí e encontrava Genice sempre linda, cada vez mais bela e madura, desabrochava como uma rosa na
primavera, deixando de ser uma garotinha para se transmutar a olhos vistos em uma adolescente linda e sensual.
Suas transformações eram conseqüências do seu próprio crescer, mas também era em parte pela recente descoberta
de um sentimento que seria seu companheiro por toda a sua vida, o Amor, um amor que já nasceu imenso,
rico em seus matizes, desde o mais terno ao mais selvagem, desde o amor carente ao amor protetor quando
então Genice transformava-se em uma tigresa ameaçadora, defendendo o que era seu com poder e força.
Nossas descobertas eram diárias, éramos como dois viajantes inseparáveis em que o mundo se descortinava
em toda sua riqueza e tudo que sentíamos, nossas experiências eram compartilhadas e sempre discutíamos nossas
necessidades e desejos em conversas que duravam horas. Nosso amor cresceu assim, de tudo falávamos sem
temor ou pejo, da saudade que nos torturava, de nossos desejos e de nossa recente descoberta, a sexualidade,
de ternura, de tristezas, de nossos medos e até dos filhos que iríamos ter...
Todos os sentimentos eram divididos, tudo era nosso, nada era dela ou era meu. Tudo nosso.
Desde primeiro dia tornamos-nos um só, apesar das personalidades diferentes, mas éramos, no âmago de
nosso ser, uma só pessoa.
Eu a amava, e amo, eu a amo com todas minhas forças.
Já disse aqui, e repito novamente, nosso amor nem a morte conseguiu diminuir, ao contrário até, aumentou mais
ainda, é um amor eterno, amor de outras vidas em que já vivemos juntos ou de vidas em que ainda vamos viver,
se é que isso poderá ser possível.
Não acredito que Deus em sua bondade de Pai, vai permitir que duas almas tão apaixonadas fiquem
tão pouco tempo juntas.
Descobri também nestes últimos meses, que meu amor pela Genice é semelhante ao universo, eles estão em
contínua expansão, dia a dia se faz maior e isso gera em mim júbilo por ter vivido uma vida tão especial e preciosa,
tão rica pela sua presença, inundada de amor e prazeres, mas também gera vazio e solidão que me deixam fragilizado
e sem rumo, sem o meu norte.
Morro de medo por não saber qual será o meu futuro sem a Genice.
Ela temia me deixar, temia que eu ficasse solitário, tantas vezes disse-me isso, como se estivesse profetizando,
nós riamos e levávamos como uma brincadeira, eu e nem ela, nunca imaginamos que isso pudesse acontecer.
Tínhamos a certeza que íamos envelhecer juntos.
Agora, o que será de mim sem a Genice.
Com ela a maior e a melhor parte de minha alma se foi, sobrou a parte ruim a tristeza, a melancolia e
principalmente o medo.
Medo que aterroriza minhas madrugadas.
Medo que me causa enjôo e insônia.
Medo da solidão.
Medo das doenças que terei que enfrentar sozinho.
Medo de viver demais.
Principalmente, medo de ficar velho sem sua presença e conforto.


Genice, sua irmã Jumara te escreveu esta carta.
Entre estas duas fotos de você e a Ju, vivemos uma vida no paraíso.
Um ano sem você
Um ano sem sua presença física, sem seu sorriso, sem sua risada escandalosa, sem seu carinho, sem seu humor,
sua facilidade de contagiar a todos com sua alegria e otimismo, mesmo em situações complicadas.
Um ano sem escutar sua voz, sem seu abraço acolhedor.
A vida minha irmã, continuou para nós, sem sentido, sem a expectativa da sua chegada para poder nos reunir
na casa de nossos Pais, tomarmos café e dar boas gargalhadas com você que sempre foi junto com o nosso
Pai o motivo de diversão e alegria da nossa família.
Um ano se passou e o vazio que ficou na nossa vida com a sua morte prematura, continua nos deixando
paralisados, sem chão, ainda sem saber como agir diante da tristeza que nos causou. Cada um de nós tinha
um relacionamento único com você, para cada um você tinha um jeito diferente, pois conhecia o nosso
temperamento e como dizer palavras para afagar nosso ego, levantar nossa autoestima. Você sempre me
perguntava se eu precisava de algo ou se enfrentava algum problema. Toda vez que saiamos juntas, eu,
você, Jane e mamãe, era com se eu fosse mais um de seus Filhos, você me perguntava se queria alguma
coisa, e eu claro, sempre queria. Diga-se de passagem, eu era a verdadeira mulher do biscoito...
Tivemos a nossa historia, os nossos segredos, nossas particularidades. Mas não pretendo escrever sobre
isso, só quero mostrar o quanto você me faz falta.
Minha querida irmã você foi e sempre será nossa Irmã Preciosa, um modelo de pessoa autentica
e perfeita até nos seus defeitos.
Nice, falhei com você nesses últimos quatro anos, não estive tão presente na sua vida.
Mas estive com você e com sua família nos piores momentos, momentos cruéis seguidos de sua morte
e confesso que não estava preparada para tudo aquilo...
Sua morte prematura foi uma tragédia absurda e inesperada, não pude me despedir escutar a sua voz
e nem saber o que você queria falar comigo quando me ligou 15 dias antes.
Nice, vamos continuar com a nossa vida, vamos sobreviver, a verdade é essa, mas sempre com a
sensação de vazio, nunca mais felicidade completa. Dizem que com o tempo a dor ameniza e fica só a
saudades, eu não acredito nisso,a dor da perda vai ficar pra sempre, nós é que vamos nos acostumar
com ela anexada dentro de nós.Procuro você em cada um de nós,na Jane,na nossa mãe,em mim.
Mas a grande verdade é que você está dentro de cada um de nós.
Vejo você na Raphaelle, no Raphael, no Ricardo, no Guilherme e no Fernandes, eles são o meu
vinculo com você, eles são o seu rosto, a sua voz, a sua luz, que não se apagará jamais...
Preciso acreditar que nos encontraremos e que voltaremos a ser a família que sempre adorei pertencer.
Não a família perfeita, mas aquela que nossos Pais nos ensinaram a amar, apesar dos erros,
mas procurando sempre acertar.
Amo-te e sempre te amarei... Sua irmã Jumara


Querida, hoje faz um ano que você nos deixou, ainda ficou dois dias aqui apenas para, como último
ato de amor, doar seus órgãos. Em nossa imensa dor você conseguiu criar alegrias
e vida a outros seus irmãos.
Creio que você está festejando um ano de uma nova vida, agora com Jesus, um ano de seu
renascimento como um Anjo, como um ser divino. Sem dores, sem tristezas e sem egos e sem precisar,
como eu, tomar medicamentos para sorrir.
Hoje sei que realizei algo que te deixou feliz, você tudo fazia para presentear seus filhos e sempre que
podia o fazia. Dei em seu nome um presente a um deles, a sua filha querida, Raphaele,
que tão bem está cuidando de mim.
Demos a ela, eu e você, um Peugeot 206 zero, ela amou e eu senti a sensação que você
estava também festejando com ela.
No final do ano daremos um igual ao Ricardo, já prometi, e então sei que você novamente
vai ficar feliz.
Só isso que tinha que te dizer, no mais apenas que te amo e continuo fazendo tudo para que
onde você estiver continue se orgulhando de mim.

Genice e Raphale
Hoje faz um ano que Genice, de um instante a outro, sentiu-se mal e levei-a para Londrina, passou a
noite na UTI, sozinha e imagino o que passou em sua mente, pois todas as vezes que eu lá fui ela estava
acordada e bem quietinha, preocupada ainda comigo, onde eu estava dormindo, se tinha frio ou fome.
No dia seguinte foi operada e não voltou mais, não nos despedimos.
Então fiquei com ela em coma profundo, já sem retorno, até terça feira a noite na UTI aguardando o
definitivo fechamento do protocolo para a doação total de órgãos.
Dias que quero esquecer. Então não escreverei esta semana.
Ficarei apenas com a lembrança de uma mulher feliz e cheia de vida, como meu amor sempre foi.
Logo que puder voltarei a contar o início de nosso segundo ano de namoro em 1972, e falar dos
anos que ela me deu, anos de alegria total, felicidade tão completa que, acredito, poucos já conheceram.
Por favor, quem ler homenageie a Genice enviando este blog e o anterior aos seus amigos, pois toda minha
luta é que ela não seja esquecida jamais, e este é o único meio que encontrei.
Esta homenagem não é apenas para a Genice e sim a todas as mulheres que como
ela fizeram do amor o objetivo principal de seu viver.