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Meu amor
A Terra ainda gira em torno de seu eixo, o sol se põe ao entardecer e cedo acorda os passarinhos
em nossa mangueira no quintal de casa.
Tudo exatamente como sempre. O tempo passa e eu vou ficando cada dia mais próximo de você,
nosso reencontro se aproxima a cada instante.
Sinto me dividido, pois amo minha família e agora ou são eles ou é você. Nunca mais os terei
juntos novamente. Apenas em meu coração vocês viverão para sempre como sempre viveram..
Do mesmo modo de quando você estava aqui eu continuo rodeado de amor, nossa filha
Raphaele hoje me deu um celular de presente, sou mimado por ela como era por você.
Nosso netinho Guilherme não me larga um instante, neste momento está
com a cabeça apoiada, em meu ombro vendo me teclar e pedindo para assistir na TV o
desenho da Casa doMichey, ele cresceu bastante neste primeiro ano em que você nos deixou,
fala de tudo e fala muito bem, constrói frases inteligentes, tem um raciocínio lógico e rápido e
vocabulário de adulto; sinto tanto você não estar aqui conosco na cama onde estamos agora ,
a nossa cama que repartiu e participou conosco de momentos maravilhosos e inesquecíveis.
Lembro me com grande tristeza suas ultimas palavras ao sair de casa chorando, talvez antevendo
sua derradeira despedida:
"Fer cuide do Guilherme, não o desampare. Eu amo meu netinho, meu querido!"
Ricardo e Raphael preocupam se muito comigo e tentam amenizar minha tristeza.
Apesar de muito amado pelos meus ainda assim estou profundamente infeliz.
Viver sem você, meu pedaço de mim, não é viver.
Penso em você o tempo todo.
Onde você está?
Você ainda existe?
Esta triste?
Perguntas cujas respostas nunca terei.
Estou condenado a viver sem você.
Viver?
Isso é viver?



Minhas cartas a Genice sempre revelavam um amor intenso e profundo, uma paixão que não deve ter iniciado naquele
domingo de janeiro de 1970 em que a vi iluminada por uma aura multicolorida na sala da casa de sua avó.
Amor tão grande! Amor tão raro! Abençoado por Deus.
O tempo provou que além desse amor ser verdadeiro, foi constante em sua plenitude, venceu o tempo e venceu a inveja,
através dele tivemos Filhos da Luz e um neto maravilhoso, um amor como este se iniciou em outras vidas em que já
vivemos juntos, nossas almas retornaram para continuar a sua missão, que só Deus em sua sabedoria, pode saber qual é.
Em cinco de abril escrevi esta primeira carta publicada abaixo, à noite imerso em saudade e tristeza, sempre só, para
desabafar e aliviar a dor que sentia em meu peito como que se fosse uma pedra enorme sobre ele, escrevi a outra
publicada acima. Ambas falam de saudade, de lágrimas e de amor. E esperança no futuro juntos.
Nelas já se antecipava que ficaríamos juntos por toda nossa existência, e o quanto seríamos felizes..
Tínhamos apenas um ano juntos e já éramos --- como foi desde o primeiro até o ultimo dia --- um só em carne e
em espírito.
Esse é o motivo de minha tristeza, estou fragmentado, mutilado em minha alma. Deixei de ser um ser completo para ser
alguém de quem foi tirado sua parte mais importante, mais que a visão, mais que a própria vida.
Foi me tirado a razão de meu viver. Foi me tirado Genice, ser especial, divino, ela amava a Deus e a Jesus, e assim
apaixonada se foi para sempre.
Genice viveu em Amor. Genice morreu em Amor.
Nosso namoro foi marcado a ferro quente pelo sofrimento das despedidas, em que ambos derramávamos
lagrimas,sinto ainda hoje seu sabor quando lhe beijava os olhos molhados, lagrimas quentes e salgadas, e seu soluçar
incontido e o tremor de seu corpo colado com todas suas forças ao meu,quando, no ultimo segundo um de nós
ia entrar no ônibus, eu sempre em angustia pelo ultimo olhar, pela derradeira imagem da mulher linda e chorosa
que eu amava e amo cada vez mais.
Alguns dias juntos em São Paulo ou Curitiba, e muitos dias distantes, em que só através de cartas nos comunicávamos.
O carteiro era nosso maior amigo, mal ele sabia como era importante e bem vindo.
Hoje se completou o ciclo de nossas vidas, voltei a escrever cartas a Genice para desabafar com ela a saudade
que sinto, para jurar meu amor eterno.
A saudade e a distancia voltaram com toda sua força, como que se vingando por estes anos todos em que
os expulsamos de nossas vidas.
Vingança cruel e terrível. Vocês acham que venceram, nunca mais ouvirei a voz da Genice, nem verei o magnetismo
de seu olhar, nem sentirei a força de sua personalidade e a distancia entre nós será, enquanto eu viver, eterna, mas
em minha mortalidade, enfim a vitória final será nossa, pois juntos no Paraíso ficaremos para sempre.


