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Quem poderia imaginar que eu e você vimos construir esse relogio no Largo da Ordem.
Tantas vezes ao olharmos as horas nele, tivemos que ir logo para casa porque
estava na hora de um dos filhos mamar...
Para quem não sabe, fica no Largo da Ordem em Curitiba, onde todos domingos tem a Feirinha tradicional.
Amor, saudade imensa de seu sorriso, de seu humor, de seu amor.

Genice, você se supera a cada dia.
Nossa história, na verdade, toda ela existiu graças a você, ela inspira pessoas que nunca nos
conheceram a acreditar no amor e na paixão, que superam as armadilhas da vida e o desconhecido
da morte. Você, meu anjo, que em vida foi tão amada, hoje continua a gerar ainda amor e fé.
Lágrimas são derramadas ao lerem sobre nós.
Tudo bem. Chorem, mas chorem de alegria porque nossa vida foi perfeita em todos os seus dias,
sem exceção de nenhum, foram dias especiais, diferentes e ricos em sensações,
em descobertas e em Amor. Deixem que de tristeza apenas eu chore!
Aprendam, as mulheres, com a Genice, que é possivel ser feliz se viver em amor verdadeiro.
Aprendam, os homens, que todas mulheres são como a Genice, mas para isso devem ser tratadas como
ela o foi, como única, especial, com fidelidade, com paixão, desejo e principalmente com respeito, pois não
houve sequer um dia de nossas vidas em que nós não falássemos "eu te amo";
E você, já disse hoje ao seu amor essas três palavras mágicas?
Inacreditavel! Desde que em 11 de abril de 1972 escrevi esta carta, mais de trinta e sete anos se foram,
anos em que vivi um amor consistente, sem flutuações e sem nenhuma crise, vivi esses anos todos
em paixão diária, em lua de mel infindável. Todos os dias eu amei, todos dias desde o primeiro domingo de
janeiro de 1970, em que a conheci, eu pensei nela sem parar, eu disse "eu te amo", e se ela estivesse longe
ou por telefone, ou em cartas, ou ainda em telegramas disse a ela "eu te amo". Tres letras que resumem
o que sinto por esta mulher, encontrei nela o sentido de viver, a força, a amizade, o prazer, a segurança.
Genice foi e continua sendo a definição mais perfeita do que é "ser mulher", mulher de poder, mulher do bem,
mulher que sempre andou ao meu lado, nunca atras e muito menos em minha frente. Todas momentos
dificeis que tive ela esteve ao meu lado, ela e já disse aqui, não brigava comigo, brigava por mim.
Hoje sou uma sombra do que fui, não consigo dormir mais, não sinto prazer em mais nada. Virei um robo, e
pior ainda, um robo invisivel
Tenho medo agora, muito medo. Da solidão, e ela será interminável, do velhice e suas doenças sem
meu amor para cuidar de mim, medo de morrer em pecado e Deus não permitir que eu a encontre novamente,
sinto-me fragilizado, infantilizado.
Minha força agora é lembrar de Genice e imaginar, ter fé, mesmo que ela seja volúvel, que eu voltarei
na minha morte a viver novamente com a razão de minha vida.
Isto foi um desabafo, vou publicar, não sei se vou manter aqui.








Agora pouco, 09:30 horas, subindo ao hospital com o Guilherme ao meu lado paramentado de Homem
Aranha, ao passar em frente à Igreja, o Gui, olhando para frente bastante sério e pensativo, disse:
"Vô, tô com saudade da Vó Ice!", uma pausa pequena e continuou,
"Ela está muito feliz"! Um "saudade" e um "muito" bem prolondados...
Não disse mais nada, não tocou mais no assunto.
Angustia indefinível.
Eu corria em busca de algo sem saber o que, apenas a urgência era cada vez mais premente,
sentia o coração em disparada, sensação de medo, angustia como só senti uma vez em minha
vida, aquela vez, lutava com toda minha energia para seguir adiante, mas vultos escuros
envoltos em névoa densa e pegajosa não me deixavam, eu esperneava, batia, mas de nada
adiantava. Estava míope, estava tudo escuro, monocromático, depressivo. Sufocava.
Peguei de uma mesa de granito, de uma só vez, varias cartas e papeis que pessoas escreveram
para Genice pedindo-lhe ajuda e continuei tentando seguir caminho, tudo em vão, a
escuridão e as pessoas sem rostos, corpos disformes, não permitiam nenhum passo à frente.
Estava suando, angustia em espiral crescente. Medo. Sentimento de perda.
Do nada surge um homem desconhecido e diz:
– suba em minhas costas que te carrego até lá, vamos juntos –.
Subi e fomos, mas depois de algum tempo ele ficou exausto, disse,
- não agüento mais, vamos pegar aquele carro ali para continuarmos -.
Entramos na caminhonete e com ele dirigindo chegamos a um lugar semelhante ao
cruzamento da entrada a Pinhal, lá havia muitas pessoas, traços lembrando aos árabes,
sentados no chão, que nos pararam e disseram,
- não adianta mais, ela já não está mais conosco, ônibus já partiu, você chegou muito tarde. –
Comecei a chorar dizendo que não era possível, eu a amava demais não poderia
ter partido sem mim.
Uma jovem linda, morena, cabelos longos sorriu e me falou:
– Fernandes, apenas atravesse aquela porta ali e vá em frente -.
Abri a porta e me deparei a um corredor repleto de pessoas desconhecidas, mas receptivas
que me acolheram dizendo:
– que sorte a sua, o ônibus quebrou e não saímos daqui ainda.-
Entrei em um ambiente enorme, cheio de pessoas felizes e sorridentes, em êxtase vi meu amor
deitada em um sofá, chorando. Sozinha. Ela que sempre protegi.
Quando me viu, Genice elevou o corpo ao meu encontro seu rosto encheu se de luz, me
abraçou bem apertado se fundindo em mim e em desespero e aos prantos me beijava
compulsivamente, eu me sentei ao seu lado beijando-a em toda sua face molhada e quente
e chorando também, com a angustia que me sufocava dando lugar a um sentimento de alivio
por estar novamente com ela, ouvi a dizer queixosa, com sua voz inesquecível,
--Fernandes, porque você demorou tanto para me encontrar, eu estava te esperando meu
amor, não me deixe mais sozinha. Nunca mais.--
E eu beijava seu rosto, lindo rosto todo molhado de lagrimas suas misturadas com as minhas,
e senti a sensação tão minha conhecida da total plenitude que só o amor permite,
e quando ia responder ouvi:
"Pai, Pai, o Guilherme não está bem, está queimando de febre".
Era a Raphaele me chamando para atender o Guilherme, febril e tossindo.
Eram 03 horas da manhã.
Nunca mais tardes de domingo juntos deitados em nossa cama! Horas de paixão seguidas das idas a Jundiaí de carro, apenas para
alimentar nossas recordações e olhar os montes e vales que você tanto amava.
"quando pudermos vamos comprar esta montanha e a noite ficar lá no alto mais perto de Deus e olhando as estrelas"
Sentávamos lá na praça em cada banco, seus olhos marejados, em cada um uma parte de nossa historia escrevemos em letras lapidadas
por beijos, abraços e principalmente sonhos. Sonhos! Ah! Nunca mais seus sonhos, seu sorriso, seu cheiro de mulher bonita, nunca
mais beijos em seus lábios sempre úmidos e quentes. Toda uma existência vivendo ao seu lado. Como superar e esquecer uma vida tão feliz,
tão rica com sua presença e tão perfeita na plenitude de seu amor! Crescemos e amadurecemos juntos, ao amanhecer éramos dois
adolescentes, ao entardecer um casal apaixonado rodeado de nossos filhos e nosso neto, e agora na escuridão da noite de minha vida
estou só.Jamais envelheceremos juntos. Era nosso sonho. Envelhecer juntos. Nós até já ríamos de nossas futuras e prováveis manias.
Sou ninguém sem você..Nunca andei sozinho, caminhava segurando sua mão e tinha que ser a esquerda ou andava com meu braço
apoiado em seu ombro. Nós nos somávamos. Frequentemente te esperava, impaciente, no carro enquanto se arrumava, e como
você demorava! Chegavava linda e perfumada, chegava soberana, um deusa.
Eu dirigia com sua mão pousada em minha coxa me acariciando sem nem notar tal era o sua necessidade de meu contato e eu
do seu. Quanta vez, em viagens longas, apertei o seu joelho para ouvir seu grito de susto e sua risada alta e ver seu pulo e também
para espantar o meu sono. Você revidava com beijos em meu pescoço com muito cuidado para que eu não me distraísse ao volante..
Dormir ao seu lado era um dos meus maiores prazeres. Palavras não definem o prazer que sua companhia me causava.
Massagens em meus pés. Muito mais no esquerdo.Cafuné em minhas costas. Unhas deliciosas.O corpo sempre colado ao meu, sua
respiração tépida em minha nuca e os seus suspiros de prazer por estar enrondilhada ao meu corpo.
Os incontáveis “eu te amo” que se repetiam durante toda a noite.Eu era amado! Era desejado.Era alguém, agora me tornei invisível.
Minha importância hoje se restringe a minha profissão, sou ninguém, sou como uma obra incompleta, pois perdi você,
pedaço essencial e vital ao meu viver.
Você me dava alegrias, trazia luz ao meu rosto e calor em minha voz. Era minha guerreira, tigresa que sempre lutou por mim.
Sou hoje como uma vela cuja chama está se extinguindo e que mal consegue iluminar, mesmo tremulamente o seu redor.
Você era minha energia, minha força, você foi o meu destino. Você me guiava e orientava.Sofria para me proteger.
Fez com que minha trajetória fosse menos árdua, pois sua simpatia e carisma abriam as portas e sua personalidade marcante
fazia com que todos lembrassem de nós.
O amor que você a todos inspirava te fez uma mulher poderosa. Uma companheira ideal.
Uma linda mulher, especial e perfeita até em seus defeitos.
Minha linda morena, você continua mais viva a cada dia.
Viva em meu coração. Nele você viverá por toda eternidade..
Eu te amo! Para sempre, eu te amo!

Dia 17 de julho de 1975, dia em que nevou em Curitiba. Eu estava de plantão de obstetrícia no Hospital de
Clinicas em Curitiba. Ultimo ano de Medicina. Genice com minha irmã Cynthia em frente a nossa casa.
Passaram 33 anos até sua viagem para Deus.
O passar dos anos lhe foi gentil, manteve-lhe a beleza e a juventude e ainda somou-se a fé incontida em Deus,
uma conversão religiosa que só agora posso entender, o tempo a ensinou a amar o próximo e fez dela uma mãe
como poucas houve, e nos apenas dois anos de avó, superou-se e nos trouxe tanta alegria e felicidade, um
amor tão absurdamente intenso, que só posso imaginar que Genice transformou-se em um Anjo de Deus,
mesmo antes de ir para a eternidade.

Mesma cama, mesmo cobertor, mesmos controles ainda jogados, mesmos travesseiros, talvez até
a mesma lampada no abajur. Tudo igual e tudo tão dolorosamente diferente.
Saudade de mergulhar meu rosto em seus cabelos e dormir meio sufocado!