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O Guilherme não está bem.
Olhou Jesus, pegou com as duas mãozinhas a sua imagem, chacoalhou irado e olhando fixo e austero para ela disse:
-- Eu quero a vó Ice, eu quero a vó Ice. Onde está a vó Ice.
Isso aconteceu há menos de meia hora no seu quarto enquanto sua mãe se arrumava, em seguida deitou
na rede e dormiu. Raridade para o Guilherme, nessa hora ele está no auge de sua energia.
Faz três ou quatro dias que ele está birrento, só chora. Tem medo de ficar sozinho mesmo que seja só por alguns minutos
e várias vezes ao dia diz -- " hoje não tou feliz, estou triste. Cadê a vovó", " tou com dor de barriga, quero a
vovó", olha para a lua e diz, " vovó volta, volta vovó, quero você"
Creio que na cabecinha dele, começou a surgir a consciência de que a vovó está demorando demais a voltar, talvez
ele estivesse tranquilo porque achasse que ela voltaria de um momento para outro, e agora com seu crescimento intelectual
esteja finalmente tendo a noção que vovó se foi e não volta mais.
Ontem, ele ao meu lado, sem motivo parou de brincar e disse:
" obrigado vovó ice, você me ajudou muito", perguntei o quê e ele disse apenas:
"ué vovô, a vó ice tá me ajudando".
Não sei explicar. Sei apenas que Genice é tão especial e tão magnífica que é inesquecível, sempre viverá conosco.
Hoje, agora pouco, há menos de 1 hora alguém, não vimos quem, deixou na mesa de minha secretária na clínica um envelope
lacrado e dentro encontrei esta carta publicada aí acima. Não tenho ideia de quem a escreveu, mas quero pensar
que ela foi ditada pela Genice ao inconsciente de quem a redigiu. Não sei o que pensar. Não tenho noção que
estou tão mal assim. Senti-me amado, e vou tentar melhorar. Obrigado a quem me escreveu.
Genice, você é tudo para mim. Eu te amo.
Essa foto aí embaixo foi tirada em um tempo dourado de nossas vidas, jovens ainda, maduros porém.
Nossa beleza -- perdão minha ausência de modéstia -- era magnifica. Onde entrávamos todos olhavam, e se
nossos lindos filhos estivessem juntos, mais ainda os olhares para nós se voltavam. Genice ficava orgulhosa,
sabendo ela, que a magnificência da perfeição era sua, sua beleza venceu a idade( a minha não), sempre foi
bela, mas sua beleza maior estava dentro de si.
Querida, amor de minha vida, acordei hoje muito mal, a noite foi um pesadelo sem fim, meu sono não se aprofunda
mais, pareço externamente dormindo, mas meu cérebro não me dá paz. Fico semi-acordado, meio que sonhando,
com os pensamentos tomando conta de mim, pela manhã estou mais cansado que ao deitar.
Querida, dê um jeito aí, peça a Deus que me dê um pouco de descanso.
Beijos, eu te amo.


O primeiro amor de minha vida, e o ultimo. Em ordem de chegada.
Em nossas cartas, desde o inicio de nosso namoro, nota-se uma preocupação com a felicidade do
outro, tanto a Genice quanto eu estávamos preocupados em que não houvesse sofrimento nem lágrimas.
Nunca tivemos um segundo de duvidas quanto ao nosso futuro juntos e quanto a intensidade do
amor que havia tomado conta de nós. Um amor que sobrevive e hoje é ele que me mantém lúcido e ainda
apaixonado. Nunca vivi sem amar. Eternamente vou amar Genice. Ela soube, com sua divina personalidade,
fazer de mim um homem muito melhor que seria sem ela.
As estrelas só podem ser vistas em sua magnitude e explendor durante as noites mais escuras e sombrias,
o meu amor hoje, como as estrelas, quanto mais escuro fica meu coração, mais ele brilha e ilumina o que
resta de mim, dando-me forças para viver mais um dia mutilado sem o colo de meu amor.
Antes, no inicio de minha eterna solidão, eu sentia pavor, medo e choro incontrolável. Com o passar dos
dias tudo vai mudando. A imensa tristeza persiste, mas agora ela está acompanhada pelo grande vazio,
sensação de perda e desalento e uma dor tão insuportável que não merece ser descrita em palavras.
Agora pouco, enquanto eu escaneava estas cartas publicadas abaixo, o Guilherme estava ao meu lado
brincando, como sempre fantasiado de Homem Aranha, e ouvi sua vozinha dizendo:
Vô, Vô! Você tá chorando? Se tá chorando vô?
E então me dei conta que enquanto eu lia essa carta da Genice de 17 de abril, lágrimas escorriam
em minha face, sem choro, apenas lágrimas de saudade. E então tive a noção exata do sofrimento
que me espera... Dor, solidão, tristeza -- não explodindo em raiva ou em lamentos, mas pior que isso,
vindo traiçoeiramente de leve, sem avisar, passos leves e decididos, visando dilacerar a minha mente.
Genice, não me deixe. Não permita que eu sofra mais que o necessário. Sinto-me só e em conflito.
Venha em sonhos me aconselhar. Eu te amo.
Para sempre, meu anjo, eu te amo.






Meu anjo, mais de dez dias que estou com gripe, primeira vez que fico assim
sem você. Sinto falta de seu chá, seu carinho, seu aconchego.
Você temia eu ficar doente, tinha pânico só em pensar em algo mais grave em mim.
Você me protegia, minha segurança sempre foi pela certeza de sua presença e seu
carinho. Nunca mais vai me dizer:
Fer, você não se enxuga, não se encoste em mim! Fica longe amor, enquanto estiver
molhado não chegue perto de mim!
E adivinhem, aí é que eu a agarrava e apertava, molhado mesmo, só para brincar com
meu amor.
Genice, eu te amo!